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As mulheres por trás da moda no Brasil do século 19

Olá, amigos!!


Gostaria de compartilhar com vocês um dos temas que mais despertou em mim a vontade de pesquisar sobre as mulheres que trabalharam com moda aqui em Recife no século 19.


Comecei a costurar roupas de época em 2020 e sempre me perguntava: as mulheres daqui usavam roupas vindas da Europa? Quem fazia essas roupas? Existiam modistas em Recife? O que aconteceu com elas?


Foi aí que comecei a pesquisar mais sobre o assunto.


Depois da chegada da família real em 1808 e da abertura dos portos, muitas mulheres europeias vieram para o Brasil, principalmente francesas, portuguesas e italianas.


Muitas começaram a trabalhar com moda e anunciavam seus serviços nos jornais da época. Elas geralmente usavam nomes como Madame ou Mademoiselle, mesmo nem sempre sendo francesas. Na época, tudo que vinha da França era muito valorizado, então isso ajudava a atrair clientes.


Muitas dessas mulheres abriam seus próprios estabelecimentos, chamados de casas de moda. Neles, existiam as modistas, que comandavam o negócio; as contramestras, que cuidavam das oficinas de costura; e as costureiras e vendedoras, que podiam ser brancas, negras livres, forras ou escravizadas.


Nessa época, o Brasil vivia sob um regime escravista. Pesquisando periódicos da época, encontrei anúncios oferecendo o “aluguel” ou a compra de mulheres escravizadas que sabiam costurar. Infelizmente, quase nunca apareciam seus nomes, apenas descrições físicas e suas habilidades.


Grande parte da minha pesquisa vem da Hemeroteca Digital, onde é possível encontrar jornais da época.  Neles procuro anúncios de modistas e costureiras. Muitas vezes encontro apenas: nomes, endereços e o que elas vendiam. Infelizmente, poucas informações chegaram até hoje.


Hemeroteca Digital
Hemeroteca Digital

Comecei procurando modistas em Recife, já que no século 19, era uma cidade muito importante economicamente. Muitos anúncios mostravam onde elas trabalhavam. Alguns desses lugares ainda existem hoje, mesmo abandonados.


O que fazia uma modista?


As modistas vendiam produtos vindos da Europa: vestidos, tecidos, luvas, sombrinhas, leques, chapéus e acessórios em geral, além de confeccionarem peças sob medida.


Jornal A Estação - Edição de 1888
Jornal A Estação - Edição de 1888

Modistas que viveram no Brasil no século 19


Década de 1820: 

Anne Durocher - Foi uma das primeiras francesas a abrir uma loja de tecidos franceses no Rio de Janeiro.


Década de 1830:

Madame Prosper - Atuava na Bahia vendendo toucas, chapéus e turbantes.


Década de 1840: 

Madame Theard - Vendia chapéus de seda, veludo, vestidos e toucados em Pernambuco. Suas mercadorias vinham diretamente da França através dos navios.


Década de 1850:

Madame Siebs - Modista parisiense estabelecida no Rio de Janeiro. Seus anúncios chegavam a incluir ilustrações de chapéus e modelos da época.


Década de 1860: 

Maria Florinda Bezerra da Silva - Atuou em Recife e recebeu o título de modista e costureira da Imperatriz Teresa Cristina.


Décadas de 1870 a 1900: 

Petronilla Camara - Trabalhava como modista em Natal, no Rio Grande do Norte.


Dona Virgínia Leclerc - Foi proprietária de uma fábrica de chapéus de sol na Rua Primeiro de Março.


Donna Urraca Carregal (Madame Ducasble) - Nascida em Alagoas, foi modista em Recife e casada com o fotógrafo Alfred Ducasble. Ela viajava para Paris para estudar as novidades da moda e depois retornava ao Recife oferecendo vestidos de baile, casamento e passeio inspirados nas tendências europeias. Faleceu de meningite em 1893.


Madame Fanny Silva - Entre as décadas de 1870 e 1880, anunciava ter trabalhado como “ex-cortadora na Casa Worth”*, em Paris, além de receber moldes vindos diretamente da França.


* A Casa Worth foi uma famosa casa de moda criada em Paris no século 19 por Charles Frederick Worth, considerado por muitos o pai da alta-costura. A marca ficou conhecida pelos vestidos luxuosos, pela influência na moda europeia e por vestir membros da aristocracia e da realeza.


Ball Gown, House of Worth ca.1887
Ball Gown, House of Worth ca.1887

Dona Leonor Porto - Modista e costureira muito elogiada em Recife, sendo comparada às profissionais francesas e inglesas. Também participou ativamente da causa abolicionista e ajudou a fundar a sociedade Ave Libertas, responsável por conseguir cerca de 200 alforrias através de meios legais.


Além disso, durante minha pesquisa encontrei um artigo sobre a existência de uma fábrica a vapor de chapéus em Recife no ano de 1882. Ela pertencia a Antônio José Maia & Cia e ficava localizada na Rua do Visconde de Goiana.


Por que os chapéus eram tão importantes?


Naquela época, o chapéu fazia parte do visual completo feminino. Era comum existir um chapéu diferente para cada ocasião: passeio, baile, luto, viagens e eventos formais.


Como os chapéus eram feitos?


Muitos chapéus vinham prontos ou semiprontos da Europa e eram vendidos nas casas de moda. Mas também encontrei anúncios oferecendo: limpeza de chapéus, reformas e redecoração. Isso poderia indicar que algumas modistas provavelmente também sabiam produzir chapéus usando os materiais disponíveis na época.


Jornal A Estação - Edição de 1898
Jornal A Estação - Edição de 1898

O principal objetivo dessa pesquisa é manter viva a história dessas mulheres.


Cada uma delas deixou sua história, mesmo que de forma anônima, principalmente quando vemos fotos antigas de chapeleiras e modistas trabalhando, mulheres usando peças criadas por outras mulheres, peças preservadas em museus, artigos em periódicos e jornais, além de livros de chapelaria e costura da época, que também incentivavam outras mulheres a trabalharem e conquistarem sua independência.


Muitas informações se perderam com o tempo, mas acredito que cada pequena descoberta já seja um grande avanço, seja entender em que determinada época uma peça era usada ou imaginar quem poderia ter trabalhado nela.


Espero que esse post possa te incentivar a pesquisar mais sobre as pessoas que viveram antes de nós e sobre as histórias que ainda podem ser encontradas através da moda histórica, especialmente as histórias das mulheres.



Referências:


REIS, L. J. de M.; PAIVA RESSUREIÇÃO, L. Histórias entrelaçadas: modistas no mercado da moda fluminense (RJ, 1840). dObra[s] – revista da Associação Brasileira de Estudos de Pesquisas em Moda, [S. l.], n. 42, p. 411–427, 2024. DOI: 10.26563/dobras.i42.1733. Disponível em: https://dobras.emnuvens.com.br/dobras/article/view/1733. Acesso em:  24 de maio de 2026.


LOPES, Charles Roberto Ross. O circuito da moda na corte do Rio de Janeiro. Disponível em: https://dobras.emnuvens.com.br/dobras/article/view/1629 . Acesso em: 24 de maio de 2026.


REIS, Laura Junqueira de Mello. Casas de moda no Rio de Janeiro da primeira metade do XIX: direitos de propriedades e gênero. Revista de Ensino em Artes, Moda e Design, Florianópolis, v. 5, n. 3, p. 301–319, 2021. DOI: 10.5965/25944630532021301. Disponível em: https://periodicos.udesc.br/index.php/ensinarmode/article/view/20066. Acesso em: 24 de maio de 2026.


REIS, Laura Junqueira de Mello. “Encarrega-se de fazer tudo que lhe encomendar a moda: o trabalho das modistas e costureiras (Rio de Jneiro, 1815-1840)”. In: ANPUH-Brasil. 31º Simpósio Nacional de História, 2021, Rio de Janeiro/RJ. Anais… Rio de Janeiro: ANPUH-Brasil, 2021. Acesso em: 24 de maio de 2026.


MONTELEONE, Joana de Moraes. “Costureiras, mucamas, lavadeiras e vendedoras: O trabalho feminino no século XIX e o cuidado com as roupas (Rio de Janeiro, 1850-1920) ”. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 27, n. 1, e48913, 2019. Disponível em: https://doi.org/10.1590/1806-9584-2019v27n148913 . Acesso em: 24 de maio de 2026.


MOTT, Maria Lucia de Barros. Madame Durocher, modista e parteira. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/download/16292/14833/50177. Acesso em: 24 de maio de 2026.


WANDERLEY, Andrea C. T. Nudez na Galeria Ducasble causa polêmica no Recife do século XIX. Portal Brasiliana Fotográfica, 7 maio 2019. Disponível em: https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=14299. Acesso em: 24 de maio de 2026.


LEANDRO, Jacilene de Lima. A luta abolicionista, a Ave Libertas e uma nova geração feminina de ativismo (Recife, 1884-1888). Disponível em: http://www.tede2.ufrpe.br:8080/tede2/bitstream/tede2/9490/2/Jacilene%20de%20Lima%20Leandro.pdf. Acesso em: 24 maio de 2026.


SANTOS, Georgia Maria de Castro. A estética da moda de luxo da corte portuguesa no vestuário feminino no Rio de Janeiro do início do século XIX. 2015. 366 f., il. Tese (Doutorado em Artes) — Universidade de Brasília, Brasília, 2015. Disponível em: http://repositorio.unb.br/handle/10482/18912 . Acesso em: 24 de maio de 2026.


ASSUNÇÃO, Beatriz Albarez de; ITALIANO, Isabel Cristina. Moda e vestuário nos periódicos femininos brasileiros do século XIX. Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, São Paulo, Brasil, n. 71, p. 232–251, 2018. DOI: 10.11606/issn.2316-901X.v0i71p232-251. Disponível em: https://revistas.usp.br/rieb/article/view/152750. Acesso em: 24 de maio de 2026.


MAC CORD, Marcelo. Operários e operárias da fábrica a vapor de chapéus de Antônio José Maia & Cia.: gênero, idade, qualificação profissional e nacionalidade. Recife, década de 1880. Revista Mundos do Trabalho, Florianópolis, v. 12, p. 1–31, 2020. DOI: 10.5007/1984-9222.2020.e69916. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/mundosdotrabalho/article/view/1984-9222.2020.e69916. Acesso em: 24 de maio 2026. 


BIBLIOTECA NACIONAL. Hemeroteca Digital Brasileira. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, [s.d.]. Disponível em: Hemeroteca Digital Brasileira. Acesso em: 24 de maio de 2026.



Foram consultados os seguintes jornais na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional:

Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial da Província de Pernambuco (PE) - 1860 a 1864

Almanach de Pernambuco (PE) - 1899 a 1925

A Província: Orgao do Partido Liberal (PE) - 1872 a 1919

A Epocha : Orgão do Partido Conservador (PE) - 1889 a 1890

Correio Mercantil : Jornal Politico, Commercial e Litterario (BA) - 1836 a 1849

Correio Paulistano (SP) - 1862 a 1869

Diário de Pernambuco

Diario do Natal : Propriedade da Companhia Libro-Typographica-Natalense (RN) - 1893

Diário do Rio de Janeiro (RJ) - 1821 a 1858

Jornal do Recife - 1871

Jornal do Commercio RJ - 1850

O Cruzeiro : Jornal Politico, Literario e Mercantil (PE) - 1829

Pequeno Jornal : Jornal Pequeno - 1898 a 1955



 
 
 

2 comentários


Julia Tuleski
há 11 minutos

Que incrível saber mais sobre as mulheres que ajudaram a molda a moda no nosso país 😍 é maravilhoso ver o nome e a história delas sendo preservados !

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Paulo Samu
há 2 horas

Texto maravilhoso e necessário! Obrigado, Fernanda! Que importante a gente preservar e saber o nome destas mulheres que fizeram história no nosso país!

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