Brasil do passado: Publicações para conhecer
- Costuras de Ontem - Luana Bragança

- há 1 dia
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Quando entramos para essa vida de costura histórica, as variadas publicações são um elemento importante para aprofundar nossos conhecimentos. Seja sobre as modelagens de cada época e seus processos de confecção, seja sobre os contextos histórico-culturais que nos ajudam a entender o papel dessas peças nas diferentes classes sociais, afinal, vestir-se é cheio de significado em qualquer época.

As publicações que contêm moldes são imprescindíveis nesta jornada e, ainda bem, o Brasil já tem obras voltadas especificamente para isso. O projeto "Para Vestir a Cena Contemporânea" já é bem conhecido e, até o momento, abarca dois séculos de vestuário no Brasil, com moldes femininos e masculinos. Vai do período colonial, a partir do século XVIII, ao Império e à República no século XIX. Este último é complementado, na parte feminina, com uma publicação extra sobre as indispensáveis estruturas interiores necessárias aos trajes daquele período. E há também o meu xodó, o de trajes infantis, que é o "Para meninos, meninas e suas bonecas: moldes e moda para crianças no Brasil do século XIX" (queria tanto que tivessem feito um infantil sobre o século XVIII!). Todos podem ser baixados gratuitamente no portal de livros abertos da USP.
Os trajes que estão divididos em militares, eclesiásticos e civis tem os moldes em esquemas em grade para ampliação manual ou digital. Destaco a parte teórica de cada livro, que explica os contextos em que o vestuário era usado, as silhuetas utilizadas ao longo de cada século, entre outras características da moda em nossas terras, o que é muito enriquecedor para o nosso repertório.
Além dos livros citados acima, quero indicar "Os caminhos da pesquisa em modelagem: história, ensino, conceitos e práticas – volume 2 (Edição especial: Trajes históricos)". É uma edição mista com trajes de diferentes eras: desde os samurais do Japão feudal, a Europa medieval até trajes brasileiros, passando pela Princesa Isabel, pelas "Donas" de famílias ricas, pela população comum e pelos imigrantes até a primeira metade do século XX. Portanto, diferentes classes sociais têm seus trajes analisados e recriados. Gostei bastante desta obra; vários trajes me interessaram.
Em relação ao século XVI, há um livro que, mesmo não sendo sobre o Brasil Colônia, penso que nos será útil, porque o que se usava em Portugal seria usado aqui de alguma maneira: "O Traje e a Aparência nos Autos de Gil Vicente". Nele, a autora Eneida Bomfim trata das vestimentas na obra do dramaturgo português. Neste e-book, podemos encontrar uma listagem de vocábulos com seus significados e mudanças ao longo do tempo, além dos nomes das vestes e de suas partes, tecidos, materiais de confecção, adornos, profissionais e seus respectivos ofícios. O texto também aborda várias fases e modalidades de execução de materiais e de roupas, além de termos relativos à aparência em geral.
O livro também pode ser relacionado à era medieval. A autora busca demonstrar nesse trabalho como é possível, por meio dos autos criados pelo dramaturgo, conhecer o papel social e o valor dado à aparência pela sociedade quinhentista portuguesa. Portanto, uma possível fonte de pesquisa para os que querem costurar algo do período.

Para aqueles que gostam dos trajes da primeira metade do século XX, o livro "O sistema de corte e costura de Sophia Jobim: os anos de ouro de Mme Carvalho no Liceu Império (1932-1954)" pode ser bastante útil na elaboração de modelagens do período. Nele, há aulas passo a passo que vão do nível iniciante ao mais avançado. Essas aulas faziam parte do curso por correspondência de Sophia Jobim (1904-1968), que foi uma estudiosa da moda e atuou em diversas frentes, desde a pesquisa até a criação de figurinos para o cinema nacional da época. Testei a modelagem de uma das mangas apresentadas no livro para usar em meus trajes e ela funciona muito bem como uma manga Rococó. Há outras publicações sobre o trabalho dela que valem a pena conhecer.

Além de livros especificamente sobre roupas, tenho algumas indicações que, apesar de não terem link para baixar, valem a pena buscar por aí, seja digitalmente ou em meio físico. Eu os indico porque, desde que comecei a confeccionar meus trajes, tenho me interessado bastante em conhecer melhor os contextos históricos do viver no Brasil daqueles tempos.
Atualmente, estou lendo "Ser nobre na colônia", da historiadora Maria Beatriz Nizza da Silva, e, pelo que já li, fica claro que o brasileiro precisa do tal "chá revelação de classe social" desde daquela época! Dessa autora, tenho outros na mira, pois ela é especialista em Brasil colonial e tem muitas publicações que me deixaram interessada como: "Brasil: Escravidão e colonização", "O sistema de casamento no Brasil colonial", "Donas mineiras do período colonial" (que trata da vida das mulheres mais abastadas da época) e "Donas e plebeias na sociedade colonial". Este último mescla as diferentes etnias, o que era imposto, os caminhos jurídicos de cada classe e as estratégias de sobrevivência possíveis dentro daquela realidade. Além destes títulos, há outros sobre a primeira metade do século XIX e sobre os estados da Paraíba, Sergipe e Pernambuco. Queria ter tempo para ler todos.
Outra historiadora que tem publicações que quero ler é Laura de Mello e Souza. Dentre seus muitos títulos, em minha lista está o seu livro "O diabo e a Terra de Santa Cruz: Feitiçaria e religiosidade popular no Brasil colonial" que, segundo a editora, é uma das primeiras obras a tratar sobre feitiçaria e todo imaginário popular em torno disso no Brasil colonial.

Seguindo esta temática, porque, quando se fala em feitiçaria, não há como negar que as mulheres foram as maiores vítimas. A historiadora Lígia Bellini escreveu o livro "A coisa obscura: mulher, sodomia e Inquisição no Brasil colonial", que consiste em uma análise de documentos e registros de confissões e denúncias de casos envolvendo mulheres, feitos pela Inquisição portuguesa quando esta passou por aqui.
E se você já leu "A Arte de Curar nos Tempos da Colônia: Limites e espaços da cura", de Carlos Alberto Cunha Miranda, dá para entender por que a feitiçaria e outras crenças se tornaram o caminho para buscar, entre outras coisas, a cura naqueles tempos. Havia um total desamparo, mesmo entre as classes mais abastadas, em relação ao conhecimento médico. Este, mesmo que devagar, ia avançando na Europa. Por exemplo, no século XVI, os livros de anatomia já traziam avanços no conhecimento sobre o corpo, mas, por aqui, essas obras não chegavam e, como não se podia ter tipografias, os saberes não eram socializados.

Outra autora indispensável é Sheila de Castro Faria, com seu "Sinhás pretas, damas mercadoras: As pretas-minas nas cidades do Rio de Janeiro e de São João del Rey (1700-1850)", que trata de mulheres africanas que conseguiram sua liberdade e ainda prosperaram dentro daquela sociedade opressiva. Dela, há também "A colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial", que aborda as questões da vida diária das pessoas naquele contexto. Já Robson Pedrosa Costa escreveu "Vozes na Senzala: Cotidiano e Resistência nas Últimas Décadas da Escravidão, Olinda, 1871-1888" . Este historiador tem sua pesquisa focada nos caminhos da resistência negra ao longo de nossa história.
E se você se interessa pela história que envolve a cultura alimentar, o livro "Delícias do descobrimento: A gastronomia brasileira no século XVI", de Sheila Moura Hue, é para você. Nele, a autora, recorrendo a textos da época, nos traz um panorama sobre os hábitos alimentares no Brasil do primeiro século após o "descobrimento". O livro conta com verbetes e ilustrações da época, além de recorrer a citações de textos quinhentistas e receitas originais ou adaptadas de livros dos séculos XVI e XVII.
Sobre o século XIX, destaco a obra de Joana Monteleone, "O Circuito das Roupas: a Corte, o Consumo e a Moda (Rio de Janeiro, 1840-1889". O livro aborda a moda no Rio de Janeiro imperial e toda a efervescência social, política e econômica que a influenciaram, abarcando o período desde a coroação de Dom Pedro II até o último baile do Império na Ilha Fiscal.

E para finalizar, um romance que também tem filme disponível no YouTube chamado "Desmundo", escrito por Ana Miranda. A história se passa na segunda metade do século XVI e trata da vida de Oribela, uma órfã portuguesa enviada para o Brasil para se casar com um colono que ela nunca viu na vida. Mulheres nesta condição eram enviadas para cá com o objetivo de a Coroa e a Igreja garantirem casamentos brancos e cristãos para esses novos 'habitantes', impedindo relações com indígenas. Todo o enredo se passa pela perspectiva da protagonista nesta nova realidade chocante, violenta e dura. Um aspecto curioso do livro é que a autora utiliza uma linguagem próxima ao português arcaico para que nos sintamos mais próximos a este período que mudou a realidade daquelas terras para sempre.



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