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Bolsos: a privacidade das mulheres e o prazer da customização.

  • femmeborda
  • 9 de abr. de 2025
  • 4 min de leitura

Olá, queridos histeriquers!

Que este ano seja de muitos projetos finalizados, moldes que encaixam de primeira e promoções de tecidos incríveis.

Neste post vou abordar um pouco sobre a história dos bolsos femininos, suas possibilidades de uso e personalização, e um pouco das inspirações que usei para criar o risco gratuito para vc bordar o seu!


Bolsos femininos são apaixonantes e curiosos. Nós, mulheres modernas, sabemos muito bem o que é sofrer com bolsos pequenos ou até falsos, mas nem sempre foi assim. Diferente das peças masculinas, que tinham bolsos embutidos desde o Renascimento, os bolsos femininos que surgiram no século XVII eram uma peça amarrável que possuía uma vasta variedade de formatos, tamanhos, materiais e até formas de usar, se adaptando à rotina e gostos de sua dona.


Mesmo depois da popularização dos bolsos embutidos em roupas femininas, os bolsos de amarrar seguiram populares até meados do século XIX o que, acredito eu, ser motivado pelo seu tamanho (normalmente maior que 30cm), a possibilidade de usar em diversas roupas sem a necessidade de retirar os pertences (como fazemos quando vamos trocar de bolsa), e até pela possibilidade de customização.


Par de bolsos franceses, 1800-1830. Victoria and Albert https://collections.vam.ac.uk/item/O108006/pair-of-pockets-unknown/
Par de bolsos franceses, 1800-1830. Victoria and Albert https://collections.vam.ac.uk/item/O108006/pair-of-pockets-unknown/

Feitos de uma infinidade de materiais, o que definia qual seria usado era principalmente o poder aquisitivo de sua dona e o que ela tinha à sua disposição. Os tecidos variavam entre linho, couro, seda, e até algodão, tanto estampados como lisos, podendo ser novos ou retalhos reaproveitados de peças de roupas antigas. Poderia não haver decoração alguma ou ser ricamente bordado com fios de lã e até metalizados.

Bolso americano, circa 1784. MET Museum https://www.metmuseum.org/art/collection/search/157045
Bolso americano, circa 1784. MET Museum https://www.metmuseum.org/art/collection/search/157045

Estes bolsos eram comumente usados nas camadas abaixo da saia, acessados pelas aberturas laterais que o modelo de amarração de saias da época permitiam. Era comum usar apenas um ou dois bolsos nas laterais, mas há registros de mulheres que usavam até quatro e juntos nas costas, de acordo com a necessidade de sua profissão e facilitando que carregassem mais peso. Além da quantidade de bolsos, a camada em que eram alocados variava, não se limitando à privacidade dos níveis internos das roupas.

Camada em que os bolsos eram comumente usados, simulação do Victoria and Albert Museum https://www.vam.ac.uk/articles/womens-tie-pockets/
Camada em que os bolsos eram comumente usados, simulação do Victoria and Albert Museum https://www.vam.ac.uk/articles/womens-tie-pockets/

Quando estava assistindo a série Agatha All Along (2024, disponível no Disney+), fiquei extremamente intrigada com uma cena em que a protagonista aparece utilizando seu bolso por cima da saia, totalmente exposto. Me perguntei "será que mulheres realmente os vestiam assim?".

Graças a uma resposta vinda diretamente do figurinista da série Daniel Selon, e do incrível livro "The Pocket: A Hidden History of Women's Lives, 1660-1900" de Barbara Burman e Ariane Fennetaux, descobri que sim! Estes bolsos maravilhosos também eram usados por cima das roupas, como um tataravô mais bonito das pochetes.


Segundo Burman e Fennetaux, "dependendo da praticidade, segurança e preferência pessoal, mulheres poderiam escolher usar seus bolsos enterrados nas camadas mais fundas das suas diversas peças de roupas ou mais próximo da superfície, as vezes até visível. (...) Apesar da prática fazer de seus bolsos suscetíveis a assaltos, era a escolha mais comum de mulheres que lidavam com dinheiro o dia todo. " (pag. 29, tradução livre).

Cena da série Agatha All Along (2024)


Os motivos bordados nesse bolso também me deixaram muito curiosa. Dado o nível de detalhamento do figurino da série, eu tinha certeza que não seria nada aleatório ou sem significado. E eu estava certa! As iniciais da Agatha Harkness, uma triluna, nó de bruxa e outros elementos escolhidos contém simbologias específicas que fazem total sentido com a personagem, uma poderosa bruxa. Você pode conferir a explicação mais detalhada neste post do Instagram do figurinista da série.

Se levarmos em conta o fato de que, por muito tempo, bolsos de amarração e bolsas (como as retículas) coexistiram sem que o uso de um excluísse o outro, podemos pensar em como o bolso possuía um papel muito importante na privacidade das mulheres, carregando em segurança (e até em segredo) itens que sua dona considerassem tão importantes que não deveriam sair de perto dela nem por um momento.

Há diversos registros que apontam para isso ao mencionar que à noite as mulheres guardavam seus bolsos debaixo do travesseiro, garantindo que o que quer que estivesse nele, se mantivesse lá.


Além do seu papel na privacidade feminina, o fato dos bolsos serem comumente usados onde o olhar público não alcança, mas ainda assim serem decorados, me faz pensar como a sua customização não se resume somente a motivos práticos (como a reutilização de sobras de tecidos, ou a identificação de a quem ele pertence - quando as roupas eram lavadas em bando, um simples bordado com suas iniciais auxiliava na identificação da dona), mas também interpreto como uma prova da importância que essa peça pudesse ter para a mulher que o vestia. Seja por apego ou pelo simples prazer de usar algo embelezado por si mesma.


Depois de tantos séculos, acho que não mudamos tanto assim, não é?


Fazer seu próprio bolso era um tarefa comum pra meninas, para praticar costura e bordado, seja para suas bonecas ou para si mesmas. Elas seguiriam fazendo seus próprios bolsos na idade adulta após os primeiro bolsos de criança perderem a utilidade por ficarem pequenos demais, fazendo dele um companheiro constante ao longo da vida de toda mulher, acompanhando seu crescimento, sua rotina, seus segredos e sua personalidade.

Boneca de Lady Clapham, usando um bolso. 1690-1700. Victoria and Albert Museum https://www.vam.ac.uk/articles/womens-tie-pockets
Boneca de Lady Clapham, usando um bolso. 1690-1700. Victoria and Albert Museum https://www.vam.ac.uk/articles/womens-tie-pockets

Com esse breve contexto e reflexão, convido vocês a conhecerem as referências que eu utilizei para criar o risco gratuito para vocês bordarem o seu próprio bolso, que pode (e deve) ser feito com o molde do Costura Histérica.



E aqui está o meu bolso!


Sugiro colocar suas próprias iniciais dentro do coração, mas sintam-se à vontade para customizar o risco, ou se inspirar para criar algo totalmente seu, só lembre de postar e nos marcar, pois teremos o maior prazer em compartilhar com nossa comunidade!



Fontes utilizadas (que tbm indico para quem quiser se aprofundar no tema):


 
 
 

2 comentários


Maria Fernanda
09 de abr. de 2025

Eu adoro esses bolsos!! Os bordados são belíssimos <3

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Arthur Adams
09 de abr. de 2025

Amo suas inspirações! Seu trabalho é incrível!

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