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Um estudo em rendas I : uma breve história das rendas

  • Foto do escritor: Julia Tuleski
    Julia Tuleski
  • 27 de dez. de 2025
  • 4 min de leitura

Ver detalhes com rendas nas roupas de hoje parece ser um detalhe tão banal que passa imperceptível aos nossos olhos, mas houve um tempo em que as rendas eram artigos de extremo luxo, fruto do trabalho delicado de artesãos. Aqui vamos ver uma breve história sobre o surgimento, auge e declínio das rendas como artigo de luxo no vestuário.


No antigo Egito já haviam exemplos de "rendas primitivas", com evidências encontradas no vestuários de múmias, mas a técnica usada era mais parecida com a técnica de trançado que hoje vemos em redes de pesca, por isso quem leva o crédito pela criação do que conhecemos como rendas é a Europa do século XVI, consolidando-se como um trabalho em tecido vazado.

"Renda" egípcia datada de cerca da 500 D.C
"Renda" egípcia datada de cerca da 500 D.C

Existem dois grupos de rendas, as rendas de agulha feitas com uma agulha e único fio, e as rendas de bilros que utilizavam vários fios trançados em sua confecção. As rendas de agulha evoluíram das técnicas de bordado, criando desenhos com espaços vazados nos tecidos, semelhantes ao bordado inglês, até evoluir para técnicas independentes de tecidos, ficando conhecido como punto in aria (ponto no ar). Essa técnica consistia em criar a renda em um suporte temporário, como papel e pergaminho que continham o desenho a ser seguido, com pontos de caseado, utilizando fios de ouro, linho, seda e prata. A renda de bilro, ou renda de bobina, consiste em trançar vários fios sobre uma base almofadada para criar o desenho. Recebe esse nome pois os fios são enrolados em bobinas (bilros) que são utilizados como suporte para ajudar no trançado. A renda bilro se tornou extremamente popular no Brasil, sendo confeccionada de norte a sul do país, carregando muita tradição e sendo o sustento de muitas famílias.

Exemplo de renda de agulha  em Point de Venise à Réseau, Itália,  final do século XVIII, Coleçaõ do Lacis Museum of Lace and Textiles, Berkeley, CA
Exemplo de renda de agulha em Point de Venise à Réseau, Itália, final do século XVIII, Coleçaõ do Lacis Museum of Lace and Textiles, Berkeley, CA
Renda de Bilro Chantilly, França, 1800s, coleção do Lacis Museum of Lace and Textiles, Berkeley, CA
Renda de Bilro Chantilly, França, 1800s, coleção do Lacis Museum of Lace and Textiles, Berkeley, CA

Renda com Punto in Aria, Italia, século XVII. Coleção do ME
Renda com Punto in Aria, Italia, século XVII. Coleção do ME

As rendas caíram no gosto da nobreza e pessoas ricas e influentes da Europa já no século XVI, como eram produzidas à mão e com materiais finos, eram artigos de luxo usados para ostentar. Um exemplo disso são os rufos do século XVII, nas pinturas da Era Elizabetana podemos ver modelos feitos inteiramente de rendas usados pela nobreza da época, essas peças utilizavam metros e mais metros de rendas e eram usadas como símbolo de status e poder. A demanda por rendas era tão grande na Europa que muitos países impuseram proibições de importação para proteger as indústrias locais, o que gerou uma onda de contrabando de rendas das formas mais inimagináveis possíveis.

Retrato de Elizabeth I com rufo de renda. O Retrato de Arminho , atribuído a William Segar ou George Gower, 1585
Retrato de Elizabeth I com rufo de renda. O Retrato de Arminho , atribuído a William Segar ou George Gower, 1585

O uso da renda avançou com força até que a Revolução Francesa freasse um pouco seu uso. Com a queda da extravagante corte francesa, com seus trajes ricamente bordados e adornados traduzindo a imagem do luxo, o uso das rendas no vestuário caiu em desuso até que Napoleão Bonaparte as trouxesse de volta em muitos de seus trajes, mas mesmo com esse incentivo começaram a perder espaço no vestuário masculino conforme o século XIX avançava.

Napoleão Bonaparte utilizando rendas em seu traje de coroação. Portrait of Napoleon  in his Coronation Robes, 1811 , Robert Lefevre
Napoleão Bonaparte utilizando rendas em seu traje de coroação. Portrait of Napoleon in his Coronation Robes, 1811 , Robert Lefevre

Ainda no século XIX as rendas produzidas industrialmente em máquina ganharam força. Para os comerciantes era uma opção muito mais em conta do que as rendas manuais, o que contribuiu para que muitas rendeiras perdessem sua fonte de renda ou trabalhassem por um salário extremamente baixo para viabilizar o comércio das rendas manuais aos comerciantes. Até 1870 quase todas as técnicas de renda manual tinham sua cópia mecânica, o que por um lado complicou a vida de muitas rendeiras, mas também tornou a peça mais acessível para o "povo comum".

Tear mecânico para produção de rendas
Tear mecânico para produção de rendas
Cartões perfurados que servism como molde para as maquinas lerem e tecer as rendas
Cartões perfurados que servism como molde para as maquinas lerem e tecer as rendas

No final do século XIX a produção de renda era quase que totalmente mecanizada, e sua produção manual passou a ser vista mais como um hobbie e uma habilidade doméstica, e mesmo tendo estado muito presentes na moda feminina da Era Eduardina (1901-1910), já não eram consideradas tanto como um símbolo de status e riqueza. O que muitas mulheres de classe alta faziam era procurar por rendas manuais vintage, principalmente produzidas antes de 1870, para tornas seus trajes mais luxuosos. Com a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, os trajes femininos mudaram drasticamente por conta da necessidades das mulheres assumirem postos de trabalho em fabricas, e a renda foi de vez descartada como peça de mais destaque no vestuário.

Bodice com forro de lã e renda feita à máquina - Final do século XIX | Início dos anos 1900
Bodice com forro de lã e renda feita à máquina - Final do século XIX | Início dos anos 1900

Hoje estamos acostumados a encontrar as rendas de nylon em rolos de 50 metros vendidos por 20 reais, em pequenos detalhes aqui e ali que não chamam tanto a atenção, alguns até mesmo consideram brega ou infantil, mas essa peça carrega muita história, tradição, já foi símbolo de riqueza e foi uma importante fonte de trabalho para mulheres artesãs durante os séculos.


REFERÊNCIAS:


  • Decifrando Rendas por Vera Filippi


  • History of Lace por Mrs. Bury Palliser


 
 
 

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