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Parte II - Vestuário infantil do passado: Entre a imaginação e a realidade da época

há 19 horas
5 min de leitura

A peça que desencadeou o meu projeto foi o espartilho infantil, afinal, quando pensamos em vestuário feminino adulto do passado esta peça é essencial a todas as classes. E se o usado por uma adulta desperta curiosidade e várias teorias, imagine quando se trata de os usados por crianças! Mas confeccionar somente ele não seria o suficiente para compreendermos o que seria vestir um traje parecido ao do passado. Por isso, também costurei outras peças básicas, como é possivel ver na imagem acima. Este é um projeto semelhante que fiz para mim mesma ao iniciar minha trajetória na costura histórica e que penso ser o básico para começar, porque serve como traje por si mesmo na representação de classes trabalhadoras e também como estrutura interna para outros estilos de peças mais vistosas.

Além do já mencionado espartilho, as outras peças foram: chemise, anágua simples e saia que estão na imagem acima. E um avental, touca e o bolso que estão na imagem abaixo.

Cor rosa e azul: o "natural" para o rococó


A cor escolhida para o traje foi o azul e esta opção não foi por acaso. Diferentemente dos nossos dias em que facilmente associamos as cores azul para meninos e o rosa para as meninas, ao olharmos para o passado é facilmente verificável que essa lógica de cor como marcador de gênero não existia ainda. Há inúmeras obras pictóricas que retratam diversas cenas em que crianças, jovens e adultos de diversas idades aparecem vestidos com essas cores livremente.

Afinal, a cor para estas pessoas era principalmente um signo de riqueza e luxo. A cor rosa, por exemplo, tão associado ao feminino na atualidade era também muito apreciado pelos homens do rococó por ser uma cor derivado do vermelho que para eles simbolizava a coragem e a nobreza.

Somente por estes dados é interessante notar como muito de nosso imaginário não somente sobre gênero é culturalmente construído. Mudanças sociais, políticas e econômicas transformam nossa cultura e afetam o modo como percebemos o mundo a nossa volta e o que hoje é tido como "natural" pode não ser mais para as gerações seguintes. Afinal, o mundo muda e as crenças se adapatam as novas realidades,

Processo de modelagem e confecção

Espartilho 


O conjunto foi feito pra uso da minha querida afilhada Laurinha, que à época havia completado seis anos de idade. O modelo de espartilho escolhido foi o que tem linguetas na borda inferior. É verdade que há modelos com e sem linguetas. Geralmente os sem linguetas são para crianças mais novas como bebês e os um pouco maiores que isto. Como a Laurinha é maior que um bebê optei por este estilo de modelagem que ao meu ver era o tipo ideal para testar a hipótese de semelhanças com roupas adultas.

A diferença do meu modelo em relação aos de referência em que a abertura é geralmente nas costas, conscientemente, optei por deixar a abertura na frente por considerar que isso estenderia o uso por um pouco mais de tempo e com uma quantidade de barbatanas reduzida às zonas essenciais de suporte. Por ser a primeira vez que fazia algo nessa escala não tinha certeza se tudo daria tudo certo de primeira, então essas escolhas me pareceram as mais adequadas.

Em relação às camadas da peça, o que minhas leituras de autores e criadores que tratam do tema dizem é que se tratando de espartilho para criança, quanto mais nova ela fosse, menos camadas teria e seria mais macio em relação ao de adulta. Seguindo essa lógica, apesar de ela não ser um bebê, usei três camadas, um crepe como tecido externo, um algodão cru mais pesado internamente para dar estrutura e um tricoline 100% algodão como forro, e isto também porque ela nunca antes havia utilizado tal peça e nem roupas cm essa quantidade de camadas e nem nestes comprimentos. Então, seu conforto era prioridade para mim. As costuras de união e canaletas foram feitas a máquina e finalizadas com o viés de fita sarjada costurada a mão e aplicação de ilhoses de metal em tom contrastante.


Saia, anágua e chemise



Para fazer estas peças, à princípio, minha dificuldade foi decidir em relação a quantidade de tecido que seria suficiente para dar o caimento similar ao de uma adulta já que seria minha primeira vez trabalhando este tipo de estilo para uma criança. Depois de pensar sobre isto, a solução encontrada para a saia e a anágua foi usar um retângulo de 1,40m de largura divido ao meio para fazer frente e costas. O comprimento iria até os tornozelos para que ela não corresse o risco de tropeçar por pisar na barra.

No caso da anágua a largura do tecido foi a mesma mas o comprimento foi menor em relação a saia, além de um babado que foi franzido e costurado na barra sem modificar a altura original, para dar um pouco de volume de abertura.



O tecido da saia foi o mesmo do espartilho, o da anágua uma tricoline de algodão leve e o da chemise um crepe de algodão. O processo de modelagem e encaixe das pregas fiz igual ao deste tutorial e há este aqui também do canal do Costura Histérica. No geral as costuras de todas as peças foram feitas a máquina nas partes que ficam do avesso e os acabamentos a mão nas áreas visíveis. Somente com a anágua a maior parte das costuras foi feita a máquina reta e a overloque.


A chemise foi construída com a mesma lógica que é feita a de adultos usando as medidas das crianças. Nesta etapa utilizei este tutorial que há no blog da Juliana Lopes para fazer o molde. Já tinha usado o tutorial anteriormente para fazer as minhas. Meu único equivoco para esta peça foi em relação ao comprimento, pensei que estava comprida demais e acabei deixando menor sem conferir a medida no corpo da criança, Mas, apesar disso, não inviabilizou o uso da peça. Fiz costuras francesas e somente o acabamento do decote e das mangas foram feitos a mão.

Avental



Não pretendia fazer este acessório, mas depois de tudo pronto pensei que era algo possível e que iria complementar lindamente o traje. Usei como referência o modelo que aparece no livro Costume Close-Up - neste post há um pouco mais de detalhes sobre esta publicação-, o tecido utilizado é um crepe de algodão bordada à máquina na cor azul em formato de rosas. Este é um modelo típico da época em que o peitilho é alfinetado ao traje que você estiver usando e é somente amarrado na linha da cintura, o procedimento de costura é igual ao das peças anteriores.

Na parte III descreverei como foi a experiência de vesti-la e suas e minhas impressões sobre a experiência.


 
 
 

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